Não sei se por hábito ou por chatice mesmo, vivo me metendo onde não sou chamado. Talvez seja curiosidade de saber como é que as pessoas lidam com suas empresas.
Tomo café da manhã praticamente todos os dias no mesmo lugar. Parei por uns tempos, mas agora tenho ido com certa freqüência. Claro que os funcionários desses lugares dificilmente param quietos e, por conta disso, as meninas que tiravam os deliciosos cafés não são mais as mesmas.
Para ser bem sincero, as que estão lá não sabem como tirar um bom espresso. Aí uma das antigas funcionárias que hoje trabalha num outro setor da enorme padaria veio falar comigo, perguntou por que é que eu não tomava mais café e sim vitamina ou chocolate quente.
Respondi com minha costumeira sinceridade que o café não era mais o mesmo, bla, bla, bla.
A garota então chamou o gerente para conversar comigo... O cara veio todo preocupado já que me vê ali há anos. Expliquei que o café espresso não estava mais como antigamente e aí veio o papo enxerido de minha parte:
- Vocês precisam treinar essas meninas. - Treinar? - Sim, tirar um bom café exige treino, técnica. - Mas só contratamos pessoal com experiência!
Era a deixa que precisava para me meter onde não era chamado...
- E como julgam “experiência”? - Não entendi sua pergunta. - Vou explicar: Só de bater os olhos, percebo que vocês contratam por quantidade e não por qualidade. - Veja, não é bem assim... - Olha, não é uma crítica sem fundamento, é uma crítica construtiva. Digamos que alguém se apresente para trabalhar dizendo que já tirou mais de dez mil cafés na vida. É um número considerável, não é? Tipo, parece ser uma pessoa experiente. - Sim, sem dúvidas. - Pois é, eu teria dúvidas. Dez mil cafés podem significar muitas coisas, dentre elas até a tal da experiência. Mas não quer dizer que sejam dez mil bons cafés. Colocando-me em seu lugar, eu não daria bola para a quantidade e sim para a qualidade. Ou investiria num treinamento para que os próximos dez mil cafés fossem melhores. - Entendo, mas sabe como é... a correria, a necessidade... - Sim, sei muito bem como é a correria. Mas eu ficaria com medo que os clientes fieis corressem do meu estabelecimento, afinal de contas, tirar um bom café espresso hoje em dia é tão comum... Sem falar nos outros setores, afinal, o modelo de contratação que usam serve para tudo, certo? - Bom, pensando por esse lado... - Então pensa assim: Não há “outro lado”, só esse! Paguei a conta e fui embora. Larguei o gerente sentado ali na mesa onde estávamos. A mim pareceu que a conversa havia feito algum sentido para ele.
Dois dias depois voltei lá. Arrisquei e pedi um espresso. Qual foi minha surpresa quando recebi minha xícara? Nada havia mudado. O café estava péssimo. Pedi então meu chocolate quente e decidi que naquela padaria, café nunca mais.
Até o dia em que decidir que naquela padaria, nada nunca mais.
MM
|